quarta-feira, 24 de abril de 2013

Expatriado


Alguém já procurou online o significado de expatriado em português? Em inglês ou espanhol você encontra algo que se encaixa na realidade. Já em português ficou meio bizarro. Fica algo assim como: degredadodeportadodesterradoexiladoproscrito. Curioso, no mínimo.

Em julho completamos 5 anos de expatriação. Isso nao faz de mim nenhuma expert mas acho que falo por mim e pelos tantos amigos expatriados que em nenhum momento me senti deportada, degredada ou exilada. Meus dois anos na China deixaram muitas saudades, boas lembranças e amigas queridas. Escrevi em um blog e me diverti muito. Quase todo dia eu tinha uma história para contar, uma foto para mostrar. Em julho também completamos 3 anos em terras belgicanas (para quem nāo sabe o belgicano veio da minha filha Nina, que chegando aqui declarou que existiam: americanos, mexicanos, belgicanos e outras tantas nacionalidades. A coisa pegou e assim ficou), e já tentei escrever mais de uma vez sobre as aventuras por aqui...bom, a coisa aqui é meio parada, estilo Cemitério do Araçá...entāo nada deu em nada. Como esse blog nāo é só da Bélgica acho que agora vai!

Essa vida diferente e cheia de aventuras nāo é para qualquer um, isso eu fui vendo ao longo desses anos. Como me disse um amigo há muito tempo atrás: Se você nāo tem o chip da aventura, nāo adianta! Nem tente! Tem que ter coragem para privar os filhos do convívio com os parentes, amigos, da escola que eles tanto gostam, da casa, dos vizinhos, da pracinha do seu bairro, do clube, da casa da praia, de tomar banho de mar todo final de semana, de usar havaianas quase que o ano todo, dos almoços de domingo na casa da vó...enfim...de tantas coisas que eu passaria o dia aqui enumerando. E dai tem aquela coisa de você descobrir depois de um tempo que nāo se encaixa mais no seu país natal e que nunca se encaixará na sociedade do país que está vivendo. Uma porque convive geralmente com outros expatriados ou entāo porque provavelmente nāo ficará tempo suficiente para se integrar no país. No meu caso olho para minhas filhas e vejo que elas não sāo meninas tipicamente brasucas, muito menos chinocas ou belgicanas. Elas se integram muito bem nesse ambiente de escola internacional. É nesse ambiente de mil e uma nacionalidades que elas se encaixam. Se é certo ou nāo eu nāo sei, mesmo porque o certo e errado nesse caso é bem relativo. Hoje eu aceito bem que minhas filhas falam e escrevem inglês melhor do que o português, e já me conformei e aceitei que elas jamais vāo escrever ou saber as regras gramaticais da nossa língua. Eu sai da escola há milênios e tenho feito um esforço danado para não escrever errado...imagina as duas entāo?

Os amigos aqui acabam virando sua família. As amizades sāo de uma intensidade que as vezes chega a beirar o insano. De verdade. Você sabe que nāo esta ali para sempre e que talvez tenha pouco tempo de convivência e isso acaba por diminuir aquele tempo todo que você demoraria para pegar intimidade. Entāo os encontros, trocas de mensagens, viagens, almoços sāo muitos. Muito mais do que você encontraria aquele seu amigo de décadas, aquele que você ama de paixāo, aquela prima querida que mora no seu coraçāo e você fica milênios sem encontrar. Já que você nāo tem pai, mãe, ninguém por perto, na sua geladeira estão os números de telefone de pessoas que você provavelmente conheceu ontem. Na escola você é obrigado a dar como número de emergência aquela mãe que você conheceu no primeiro dia de aula. Algo assim jamais aconteceria no Brasil comigo, certeza!

E da mesma forma que vocês ficam amigas essa amizade toda pode acabar de um dia para outro. Uma das duas acaba mudando e se a amizade não for daquelas de uma vida inteira as chances de vocês se verem novamente cai para 1 em um milhão. Triste? Sim, e mesmo que isso aconteça repetidamente nunca fica mais fácil. É geralmente nessa época do ano que chega o email da escola perguntando dos seus planos para o ano letivo seguinte. Eu sempre me preparo emocionalmente para alguém querido partir, mas nunca de verdade estou preparada. Esse ano quase "perco" uma amiga, por muito pouco ela acabou ficando. Eu fiquei dias triste, chorei, elocubrei planos mirabolantes para arrumar uma transferência para o Cassiano, parecia doida! Fiquei aliviada quando ela me disse que ficaria e foi quando eu me dei conta que por mais que eu me prepare eu nunca vou estar pronta para dizer tchau.

Voltar pro Brasil? Quando? Ouço sempre, toda vez que vou ao Brasil para ser mais precisa. Não sei quando, não sei se eu quero. Me sinto culpada quando vejo a cara de decepção de uns e outros quando eu repondo assim, e fico pensando se estamos no caminho certo. Morro de saudades da minha vida no Brasil mas não sei se estou preparada para abandonar essa vida de aventuras.

A Comuna em que moramos aqui na Bélgica é flamish e tem como regra e princípio não oferecer serviços em nenhuma outra língua que não seja o Dutch. No primeiro ano eles te dão um desconto e te atendem em inglês (eles são todos fluentes em inglês, francês e Dutch obviamente). No meu segundo ano me deram uma dura e tentaram me atender em holandês. Foi uma chateação. Eles falavam bem devagar, olhando nos meus olhos e repetindo as mesmas palavras várias vezes. Chegou a ser divertido depois que o nervoso passou. Cassiano vendo o circo pegar fogo resolveu rapidinho oferecendo vários vouchers de cerveja para o povo que atende na comuna. Dai por diante comigo foi só inglês, me conhecem por Mrs. Hissnauer, quebram todo tipo de galho pra mim, como por exemplo autenticar a assinatura do Cassiano sem eu apresentar a carteira de residente dele! É o jeitinho brasuca invadindo as terras belgicanas, mais o fato da cidade que eu moro ser um ovo. A população deve ser em torno de 20,000 contando os cachorros, cavalos e ovelhas da região provavelmente! Bom, a cerveja e o fato que eu nunca mencionei que escolhi o francês para aprender, mesmo morando na parte holandesa me quebram os galhos. Certeza!

E assim vamos levando. Confirmamos mais um ano na escola. As meninas estão felizes, nenhuma amiga está indo embora esse ano, nós vamos ficar e o inverno acabou. Finalmente! E eu? hoje estou feliz. 21C e um dia lindo de sol. Hoje é um dia bom aqui em terras belgicanas, e por hoje eu estou feliz. Deixa a chuva voltar que começo a elocubrar meus planos de mudanças! ;)



9 comentários:

  1. Post maravilhoso, claro.
    Esta prima que não te vê há milênios mas que te ama muito e tem você na suíte presidencial do único coração que possui estará sempre pronta para ler os próximos posts.
    A única crítica? A fonte gráfica. Para textos curtos, ótima!, mas para deixar o coração ler... cansativa.
    O problema de a Bélgica não inspirar posts corriqueiros talvez seja pelo fato de, apesar da tanta bizarrice beligicana, termos sido colonizados por europeus e estarmos muito perto dessa realidade. Bem diferente das bizarrices chinocas, que tanto me divertiram.

    bjs, querida, e até muito breve se o seu coração te mandar escrever mais por aqui.

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    1. Prima querida!!! Você como sempre mais que querida! Também não curti a fonte, e suei para encontrar onde mudar!! ufa! Mas consegui!!! Beijokas mil pelas palavras de carinho!!! Tambem te amo!!!

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    2. Ah!!! E concordo plenamente no quesito bizarrices europeias! Morro de saudades dos meus chinocas!!!! :(

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  2. Aninha,
    Talvez você não saiba, mas você tem veia de escritora. Achei lindo este texto do ponto de vista literário. Não sou esperto (como dizem os hispânicos) em literatura, mas o texto em si é muito agradável, e isso é o que vale.
    Ninguem mais do que eu entende o que é ser expatriado. A convivência na China aí na Bélgica, embora tênue, foi suficiente para sentir (este é o verbo) o que é ser expatriado.
    Nos dias de chuva ou neve, em que 09:00 e 16:00h significam noite, você poderia se dedicar à literatura.
    Você tem a veia e o clima (nos 2 sentidos), só faltam a vontade e a coragem.
    Eu até tenho sugestão para o título da obra. Pense nisso.
    Beijos para todos.
    Ducho

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    1. Vôvo, vou pensar com carinho e conversamos em Julho.
      Estou sentindo muito a sua falta. Venha logo ficar mais uns dias aqui em casa!!!
      Te amo!
      Muitos beijos,
      Aninha

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  3. Apesar de na epoca ja' ter 8 ou 9 mudancas nas costas, nunca vou me esquecer da interminavel viagem a China, com uma filha de 6 anos e outra de 3. Indo para um mundo de incertezas pessoal e profissional. Ao mesmo tempo, eu tinha duas cetezas. A nossa vida nunca mais seria a mesma, e em segundo, sempre junto de uma super companheira para o que der e vier.

    De la' pra ca' muuuuuuuuita coisa aconteceu. Passeamos por metade do mundo se nao mais que isso, fizemos novos amigos, vimos e sentimos muita coisa diferente, matei um chines no sotao de minha casa e nao fui pra cadeia....minhas filhas tem sotaque e nao conseguem falar uma sequer frase completa em puro portugues (vexame completo), trouxemos muitos amigos e parentes para conhecer parte disso tudo, fomos assaltados na Belgica, acidente de bike, acidente com cachorro, etc, etc, etc....

    Mas.......se pensarmos que existe somente uma vida, pelo menos do jeito que a conhecemos, eu e' que nao vou ficar assistindo de arquibancada.

    Como dizemos na compamhia, ou voce "senta na mesa, ou entao voce faz parte do menu"....eu nao sou menu....

    Enfim, nada melhor que um fim de semana dentro de casa, na gelida Belgica com somente nos 4 ! Isto sim vou sentir saudades um dia.

    No mais, estamos prontos para qualquer outro desafio que aparecer. A vida e' curta !!!!

    Druida, volte com o seu blog. Em geral seus textos sao otimos de ler. E ps que conhecem sempre me pedem isso.

    Muitos beijos de obviamente sempre,uma cidade diferente que estou por viagem....

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    1. Sem você não seria aventura. Sem você não teria alegria.
      Te amo, você é o amor da minha vida!
      D.

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  4. Ana, minha valente menina. Realmente eh uma Druida.

    Fiquei muito feliz em poder ler seu blog, continue isto me faz bem, beijos
    Mamãe

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  5. Te amo mãe! Aprendi a ser valente com você!
    Estou com muitas saudades! Já já estou aí!
    Muitos muito beijos com amor,
    Ana

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